Se o amor se vai

>> segunda-feira, 8 de agosto de 2011


(imagem: google)
O amor acaba. 
Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos


Se o amor se vai

7 comentários:

Beth/Lilás 8 de agosto de 2011 15:44  

É terrível, simplesmente terrível quando isso acontece.
Posso entender que a paixão se vá, mas se o amor se for também, o jeito é não forçar a barra e aceitar com resignação e força para ficar aberto de novo para um novo amor.
um beijo grande carioca

Celina Dutra 8 de agosto de 2011 20:05  

A crônica é linda! Mas o fim de um amor é muito, muito triste! Mas fazer o quê? É parte da vida.

Girassóis n sua semana.
Beijos

Gilmara Wolkartt 8 de agosto de 2011 22:42  

Ei Macá!
O texto é ótimo, e infelizmente verdadeiro, quando menos esperamos o amor acaba. É a vida...
Que sua semana seja de paz.
Gd beijo

Socorro Melo 9 de agosto de 2011 10:50  

Oi, Macá!

Um ótimo texto, para nossa reflexão.
Mas, será que o amor acaba? Amor, amor... de verdade... acaba? Ou, será que acaba porque não era amor?
Penso que amor puro e verdadeiro não acaba, nem com a morte.

Um abraço
Socorro Melo

Valéria 9 de agosto de 2011 10:58  

Oi Macá!
Vim lá do blog da Norma te visitar!
Parabéns pelo texto que eu chamei de flashback de emoções.rss
O seu blog também é carregado de sentimenetos e emoções!
Parabéns!

Beijos!

Cantinho She 9 de agosto de 2011 16:57  

Hahaha querida, são as sintonias da internet...rsrs Recebi por e-mail de minha mãe e não resisti em postar, pois é tão linda a definição, né?! Mas posta mesmo que é lindo ;) No dia dos pais vou atualizar, a intenção era deixar a semana toda por conta da data, mas aí hj lançamos o MMNS aí precisei fazer um novo post. Por falar nisso, adorei te ver lá no novo cantinho, seja bem-vinda. Volto ainda hj por aqui para ler e comentar o seu post! ;)
Beijo, beijooooo
She

Glorinha L de Lion 10 de agosto de 2011 14:27  

Pois é Macá...quando isso acontece é triste demais, né? Estou começando a achar que não existe amor eterno...vai virando amizade, carinho, mas o amor mesmo, com o tempo e a rotina, acho que vai definhando...beijos,

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