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GÊNESIS, REVISTO E AMPLIADO

>> segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Quem me acompanhava aqui no blog sabe da minha admiração pelo Antonio Prata. Antes às quartas-feiras e agora aos domingos, a primeira coisa que leio no Jornal Folha de São Paulo é a sua coluna. Com isso meu marido e meu filho fizeram disso também uma leitura obrigatória mas ............... excelente.
Leiam e vejam; eu não tenho razão de gostar?

Visto que se aproximava o sétimo dia,
Deus disse: 'Que a meia fure, que a privada entupa,
que a internet caia...'

Então o Senhor Deus disse a Adão: porquanto deste ouvidos à tua mulher, e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses: maldita é a terra por tua causa; com o suor do rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porque tu és pó e ao pó tornarás.
     E, vendo o Senhor Deus que Adão fazia-se de desentendido, disse: espera, que tem mais; não só custará o pão o suor de teu rosto, como aumentará a circunferência de tua barriga, e a circunferência de tua barriga desagradará à Eva, e Eva te dará chuchu, e quiabo, e linhaça, e couve, e outras ervas que dão semente e leguminosas que dão asco, e delas usarás como alimento, em teus dias de tribulação.
     E disse também o Senhor: porquanto comeste da árvore, porei em teu encalço insetos peçonhentos, e serão pernilongos nas cidades, e nas praias borrachudos serão; e ordenarei que te piquem bem na pelinha entre os dedos dos pés, e que zunam em teus ouvidos, e nas noites sem fim recordar-te-ás de teu criador.
     Não satisfeito com os castigos, continuou o Senhor Deus: que destas ventas por onde soprei a vida escorra muco, e que seja frio e pegajoso como as escamas da serpente, e caudaloso como as águas do Jordão, e que brote numa sessão de cinema, ou na Sala São Paulo, e que tenhas à mão somente uma folha de Kleenex, e que com ela te enxugues e te assoes, até que se esfacele a última fibra de celulose, marcando teu rosto com inumeráveis pontinhos brancos, como marcarei a face pecadora de Caim.
     E assim vagarás pela terra, disse o Senhor Deus, pois grande é teu pecado. E disse mais: cansado de perambular pela terra, inventarás o automóvel, mas o automóvel só fará multiplicar o teu cansaço; e gastarás metade de teus dias na Rebouças, e roubarão teu estepe, e te esquecerás do rodízio, e os pontos de tua carteira excederão o máximo permitido pelo Detran, que será 21, e andarás de táxi, e ouvirás elogios ao massacre do Carandiru, e diatribes contra médicos estrangeiros, e sentirás na carne a miséria de tua descendência.
     Em vão, buscarás refrigério em viagens, mas quando no aeroporto estiveres, e chegares ao portão 4, alto-falantes te mandarão para o 78C; e quando o 78C alcançares, serás mandado de volta ao portão 4, e faminto pagarás R$ 16 num pão de queijo e numa Coca, e a Coca será de máquina, e o pão de queijo estará frio.
     Então, visto que se aproximava a viração do sétimo dia, Deus se apressou, e disse: que o sal umedeça, que o bolo seque, que a meia fure, que a privada entupa, que o dinheiro escasseie, que o cupim abunde, que a unha encrave, que a internet caia, que o time perca, que a criança chore, que o churrasco do teu cunhado seja melhor que o teu, e que todos assim concordem, inclusive Eva, e que, largado num canto da varanda, com tua Kaiser quente na mão, te lembres que eu sou El Shaddai, e que estou acima de todas as coisas, inclusive de tua careca, que não temerá a finasterida, não aceitará o minoxidil nem reagirá às preces que, em vão, me enviarás.
     E, dizendo isso tudo, o Senhor Deus lançou Adão para fora do jardim do Éden, e lançou Eva para fora do jardim do Éden, varão e fêmea, os lançou.
(Antonio Prata)

beijos

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Os jovens mandam uma, duas, três a toda hora e em qualquer lugar: por que não?

>> segunda-feira, 25 de março de 2013


Eu tenho feito isso, mas confesso que todas as vezes que vou usar uma exclamação (!) eu me pergunto porque estou fazendo isso. E você, usa muito?

! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! 

Fatores colaboram para a dependência da

exclamação: é a pressa que me faz mandar

 'abs!', 'bjs!' e 'hahaha!'
* * * * 

NÃO LEMBRO quando usei pela primeira vez, mas imagino que as razões tenham sido as mesmas de todo mundo: dar uma descontraída, uma turbinada. Que mal tem? -devo ter pensado: grandes artistas usaram, os jovens mandam uma, duas, três, simultaneamente, a toda hora e em qualquer lugar: por que não? Se soubesse, lá atrás, onde iria chegar, jamais teria experimentado: agora é tarde, Inês é morta. Ou melhor: é morta!!! -digo, exibindo a céu aberto meu vício nesta praga ortográfica: a exclamação.
     Não quero me eximir da responsabilidade -um alcoólatra não pode culpar um pé na bunda, a má fase do Palmeiras ou as letras do Reginaldo Rossi por seu estado-, mas há, decerto, fatores que colaboram para a dependência. No meu caso: a pressa. Tivesse mais tempo para tudo o que não é trabalho, conseguisse cultivar as amizades com a calma que elas merecem e não estaria agora enviando e-mails com "abs!", "bjs!", "claro!", "vamos!" e até mesmo -Deus, em sua infinita misericórdia, tenha piedade de mim-: "Hahaha!!!".
     Entendam, não é por mal. Ontem, por exemplo: eram umas três e meia a tarde, a crônica estava atravancada, o deadline aproximava-se como o solo na queda livre e eis que chega o e-mail de um amigo querido, que não vejo há anos. Ele conta do filho que nasceu, do emprego que arrumou, lembra de um Réveillon que passamos juntos, em Ubatuba, desenterra uma piada que à época nos fez rir muito e que agora me enche de nostalgia.
     Não é uma mensagem a que se possa responder correndo, de modo que a guardo para o fim do expediente, quando, já tendo entregue a crônica e me desincumbido de todos os outros penduricalhos profissionais, poderei contar minhas aventuras e desventuras nos últimos tempos, relembrar algum momento daquela viagem, agregar à piada certo detalhe que ele deixou escapar.
     Mas quem disse que consigo desincumbir-me dos penduricalhos? Eles não têm fim. Graças a Bill Gates, Steve Jobs e seus comparsas, que grilaram o tempo ocioso de toda a humanidade, o transformaram em dólares e o depositaram em suas contas bancárias, arrasto atrás de mim uma matilha de celulares, tablets e laptops, bichos mais carentes do que labradores num canil, requerendo continuamente a minha atenção, com seus ganidos eletrônicos: seus "trrrrllls" e "pims" e "brrrrlums".
     Um e-mail tão importante, contudo, não pode ficar sem resposta -e é aí, meus amigos, que o homem vacila. É aí que, hesitante entre um dos lados na bifurcação -escrever direito a mensagem, abandonando um pouquinho o trabalho ou deixar para outro dia, dando uma mancada com o amigo-, acabo não escolhendo lado nenhum e metendo o carro no canteiro central -o que, no caso, significa enviar: "Saudades, Fabião! Cerveja, em breve?! Abs!!!".
     De noite, na cama, a mensagem fica zunindo em meu ouvido, como um pernilongo. O "Abs!!!", principalmente. Ridículo. De que adiantam três exclamações num abraço que sequer abriu-se com todas as letras? Decido que amanhã, antes de qualquer coisa, escreverei um e-mail decente pro Fábio.
     É o que reafirmo hoje, quarta, diante do tablet, enquanto tomo café: assim que acabar de conferir os e-mails, escreverei para ele. Juro!!!

Crônica publicada no jornal Folha de São Paulo em 13/03/2013

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Novos pergaminhos do mar Morto

>> quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Gente, ando numa correria tão louca, que nem tenho tido tempo pra postar, pra entrar nos blogs, enfim, pra conversar e ver as coisas bonitas que vocês andam fazendo.
Mas hoje, quarta-feira, é claro que roubei um pouquinho do tempo dos afazeres pra ler o meu querido Antonio Prata, adorei e estou compartilhando com vocês. Espero que gostem também.

* * * * *

Gabriel, me diz uma coisa, 
com sinceridade: você
manuseou o ovo? Aquilo 
não resite a um espirro!

* * * * *


Memorando 173, Setor de Design. Ref. reprod. aviária.
     Gabriel, me diz uma coisa, com sinceridade: você manuseou o ovo? Apertou? Diz se isso é trabalho que se apresente?! Aquilo não resiste a um espirro!
De fato, como você mencionou nas explicações anexas, o ovo é muito bonito, é harmônico, dá uma sensação de pureza que se coaduna com o ato da reprodução: mas quantas vezes eu terei que explicar que design não é fricote, é função?! Se dependesse de vocês, tigre ia ter cauda de pavão! Diga pros seus designers e outros querubins envolvidos no projeto que eu não criei a beleza para mascarar defeitos de estrutura! Ou vocês me trazem um ovo mais resistente até o quinto dia ou, em represália, reduzirei para 7 as 27 cores de vosso tão amado arco-íris.
Memorando 178, Setor de Design. Ref. mexerica.
     De duas, uma: ou a casca da mexerica -bela evolução em relação à laranja- foi desenvolvida por uma equipe de designers e os gomos, por outra, ou seus talentosos e desleixados querubins deixaram os gomos por último e, às pressas, ignoraram aqueles irritantes fiapinhos brancos. Repensem. Se eu fizer o homem à minha imagem e semelhança, como estou pensando, ele vai ficar bastante descontente em gastar parte da existência desnudando a fruta dessa infame e pegajosa teia.
Memorando 235, Setor Táctil. Ref. sens. gelo.
     Preguiça, preguiça, preguiça, Rafael! Quando eu acabar a criação, vou fazer uma lista dos sete piores pecados e botar a preguiça entre eles. Pois veja só: eu crio o gelo, que é em tudo oposto ao fogo: um é frio, outro quente, um concentra moléculas, outro as espalha, um conserva, outro destrói. Aí, peço a vocês para me dizerem qual a sensação que o gelo traz à pele e me dizem que ele queima, como o fogo?! Balela esse papo de reversão de expectativa -aliás, vou parar de ler essas explicações anexas, cheias de desculpas disfarçadas de proposta. Pensem numa sensação original e crível. Lembrem-se de que a criação tem que ser lógica, para que a lógica última resida em mim, e mais não direi, pois você -espero- deve ter lido os manuais.
Memorando 53. Setor de cavalgaduras. Ref. unicórnio.
     Nem pensar. De cavalo estranho, já me basta a zebra.
Memorando 675. Ref. Ap. genit/ap. excret.
     Uriel, diz uma coisa: eu pus o céu ao lado do inferno? Não. Sabe o significado de "antípoda"? Pois procure no dicionário. O peixe está no fundo dos rios, as aves, no firmamento. O sol a brilhar de dia, a lua a governar a noite. Então me diz, Uriel, como o aparelho reprodutivo de todo mamífero, toda ave, todo peixe e todo réptil tá colado no aparelho excretor?! Tá certo que pretendemos botar limites à libertinagem, mas não é espalhando excrementos na porta dos templos que impediremos a entrada dos infiéis. Repense.
Memorando 709. Ref. Cons. finais.
     Dona Eulália, favor encaminhar um pote de ambrosia para cada querubim envolvido no projeto da banana, do seio e das bromélias. Demita imediatamente todos os responsáveis pelo gambá.
Sem mais, Deus.

(Crônica de Antonio Prata, publicada na folha de São Paulo desta data, caderno Cotidiano)

beijos

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O seu namorado/marido/companheiro faz isso???

>> quarta-feira, 23 de maio de 2012


O meu, infelizmente, não gosta muito de dançar, mas sabe que, pensando bem, não me lembro de um momento desses?
Mas ......... deve fazer. 
Numa próxima festa, depois de alguns drinks, vou levá-lo para a pista de dança bem na hora do "rock and roll". Vamos ver se ele também gosta.

* * *
Eu podia estar de pochete, de 
moletom, palitando os dentes, 
mas tô só aproveitando a vida
* * *

Então, no último sábado, depois de dez anos de repressão, dez anos de autocontrole e sofrimento, durante os quais curvei-me aos ditames do recato e do bom gosto, liberei a guitarrinha. Estou falando daquele gesto, ou melhor, daquele hábito, tão execrado pelas mulheres quanto adorado pelos homens, de tocar uma guitarra imaginária na pista de dança.
     De uns tempos para cá, deram pra chamar a firula de "air guitar" e existe, inclusive, o "Air Guitar World Championship", disputado todo ano em Oulu, na Finlândia (migre.me/9atst), mas campeonatos de air guitar estão para a guitarrinha como Wimbledon para o frescobol: quando os primeiros acordes de "Satisfaction" soam pelas caixas da festa, a última coisa que passa pela minha cabeça é a perfeição dos movimentos, é superar os comparsas que, de olhos fechados e empunhando Fenders inexistentes, vivem seus momentos de Keith Richards, levando milhares de pessoas ao delírio nos estádios lotados de suas fantasias. 
     Pois guitarrinha, meu caro, é entrega. Entusiasmo. Guitarrinha -eu digo de boca cheia, sem medo do clichê- é emoção.
     É por isso -aliás, percebo agora- que as mulheres ficam tão incomodadas com essa nossa prática lúdico-patética. Pois, por maiores que tenham sido suas conquistas nos últimos cem anos, por mais emancipadas que estejam, ainda querem, no fundo, um homem controlado e seguro, um homem que -elas sonham, do alto de seus saltos e de seus cargos- seja capaz de apaziguar seus anseios, aplacar suas angústias, um tipo sereno e calado, enfim, nada a ver com o sujeito que, depois do segundo uísque, com as pernas flexionadas e as costas tombadas para trás, chacoalha a calva como se balançasse a cabeleira do Slash, contraindo os dedos convulsivamente, emulando as primeiras notas de "Sweet Child O' Mine".
     Lembro vagamente de quando soube que vivia em pecado. Foi em algum momento entre o último boletim e o primeiro holerite. Numa mesa de bar, quatro ou cinco garotas listavam as maiores heresias da condição masculina, e lá estava ela, a guitarrinha, empatada com a pochete, o palito de dente, o moletom e a exibição do cofrinho na troca de pneus. Eu, que sempre fui um fraco, que, desde o surgimento dos primeiros hormônios, pendurados nos ralos pelos do buço, sempre fiz o que pude para agradar às mulheres, para conseguir sua atenção, sua admiração e, se possível, seus carinhos, acatei essas arbitrárias interdições. Reprimi o George Harrison no backstage de meu ser e ali o deixei -até o último sábado.
     Acho que tem a ver com esta cômoda idade: 30 e poucos. Ainda temos o vigor da juventude -o vigor necessário para solar uma guitarra imaginária-, mas já deixamos pra trás o pudor da adolescência -pudor de contrariar as diretrizes do grupo, de não se encaixar na moldura da época. Até os 29 você ainda tem esperanças de se tornar outra pessoa. Depois dos 30, você simplesmente aceita ser quem é, relaxa e goza. E não me olhe assim, meu amor: eu podia estar roubando, matando, podia estar de pochete, de moletom, palitando os dentes no casamento da Renatinha; tô só aproveitando a vida, enquanto é tempo, "while my [air] guitar gently weeps".


um beijo

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O retorno do retorno

>> quarta-feira, 9 de maio de 2012


* * * 
De todos os germes de loucura que
um dia possam brotar, há um que 
tem me incomodado bastante
* * *
Todos sabem que a barreira entre a sanidade e a loucura é mais fina do que Magipack: uma esticadinha, uma alfinetada e, pronto, nosso sarapatel de caraminholas pode entornar sobre a reluzente fórmica da consciência. Convenhamos, se fosse possível filmar o que passa por sua cabeça numa mera ida à padaria, você seria amarrado a uma camisa de força antes mesmo de conseguir comer um pão na chapa, tantas seriam as sandices sem nexo -e, pior ainda, as com nexo- projetadas na tela do pensamento.
     De todos os germes de loucura que, temo, um dia possam brotar, há um que tem me incomodado bastante ultimamente. Trata-se de uma loucura antiga que agora resolveu me visitar de roupa nova. A loucura antiga, que me acompanha desde que me conheço por gente -desde, portanto, que me desconheço-, é a seguinte. Estou numa estrada. Avisto uma placa de retorno. Meu medo é pegar esse retorno, fazer o oito no viaduto sobre a estrada e, do lado de lá, entrar novamente no retorno para o sentido em que eu vinha. Chegando ao ponto de partida, mais uma vez, pegaria o retorno, e ficaria preso nesse circuito de autorama até acabar a gasolina, até, quem sabe, ser parado pela polícia com tiros no pneu -mas quem garante que, então, não seguiria a pé, fazendo sempre o mesmo caminho, entregue à satisfação infantil da repetição?
     A versão atual da fantasia tem o mesmo conteúdo, mas o cenário não é mais uma estrada, e sim as redes sociais e o e-mail. Estou no meio de um texto e ouço o bipe de chegada de mensagem. É a placa de retorno, acenando-me, a chamada para que eu saia da rota. Assim faço: minimizo o Word e abro o Outlook. Se eu logo voltasse ao trabalho, estaria tudo certo, mas não: decido pegar um outro desvio e abro o Facebook. Não satisfeito, entro no Twitter. Então, quando estou indo pro Word novamente, penso: por que não abrir o e-mail, só mais uma vez?
     Só mais uma vez? Será? Quem garante que, terminado o segundo passeio pelo circuito, eu não vá recomeçá-lo? E re-recomeçá-lo? E re-re-recomeçá-lo? Como saber se eu conseguirei sair dessa montanha-russa do diabo, dessa inútil roda de ratinho de laboratório? Há dias em que passo 30, 40 minutos indo de um programa pro outro, como uma bola de pinball sendo ricocheteada pelos pinos e barras coloridas da máquina.
     Alguns anos atrás, no metrô, vi um cara atravessar a estação tocando todos os cartazes de publicidade com o indicador da mão direita. Quando chegou ao fim, parou, virou-se e percebi em seus olhos vidrados o desespero do abismo. Era a placa de retorno que ele encarava. Respirou fundo, como se prestes a encarar uma missão enfadonha, mas incontornável, e cruzou a estação no sentido contrário, tocando as mesmas placas com o indicador esquerdo.
     Acho que meu Magipack ainda está em boas condições, mas não custa deixar o aviso: por favor, Andressa, Lívia, Denise, Daniela e Adriano, se um dia minha crônica não chegar ao jornal, contatem um parente, peçam para um vizinho atirar garrafas de água mineral e maçãs pela janela do escritório, para o zelador cortar minha luz. Há grandes chances de que eu esteja preso no retorno do retorno do retorno do retorno do retorno...


@antonioprata

E eu estou aqui, morrendo de medo de me tornar como o Antonio Prata (meu cronista preferido, você sabem disso né?).
Só uma olhadinha nos e-mails, ah! só no facebook, no twitter, hum.... mas eu preciso trabalhar, então vou para o site da empresa; ah! mas alguém me enviou um e-mail; tem alguém me chamando no FB, ah! será que fulano respondeu o e-mail, deixa eu olhar............ hum...... o dia passou...... até amanhã.

beijos

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Sandices

>> terça-feira, 13 de março de 2012


E-books, Ipads para ler um livro? O que é isso?
Isso quer dizer que o pergaminho vai "sair de moda"?
Quanta besteira...



Gazeta da Jerusalém, século I d.c.

"Há duas semanas não se fala em outra coisa: de Damasco a Jericó, da Judéia à Galiléia, aquém e além Jordão, todos discutem a nova tecnologia que, segundo seus criadores, vai revolucionar a forma como lemos.

Para aqueles totalmente desinformados, que passaram os últimos dias saqueando cidades vizinhas, degolando gentios ou fazendo libações a Deus, explico: trata-se de um bloco retangular, mais ou menos do tamanho de um tijolo, embora mais fino, a que chamam de “livro”. A novidade tem conquistado tantos adeptos que já há quem anuncie o fim do pergaminho.

A maior diferença do “livro” em relação ao bom velho rolo é o conceito de “página”: em vez de o texto ser desenrolado continuamente, como fazemos há mais de mil anos – muito eficientemente, diga-se de passagem – o “livro” desmembra a escrita em centenas de retângulos de papel. Para passar de um parágrafo ao outro, quando se chega ao fim da tal “página”, é preciso virá-la e recomeçar a ler no verso da mesma, lá em cima, o que, segundo alguns estudiosos, interrompe o fluxo da leitura e compromete seriamente a compreensão do texto.

Os defensores do tal “livro” dizem que sua superioridade em relação ao pergaminho reside principalmente em sua capacidade de armazenamento. Enquanto nossos rolos chegam a no máximo dez metros, um “livro” pode conter centenas de “páginas”, o equivalente a dezenas de pergaminhos. Ora: para que eu quererei levar por aí tanta informação, se só consigo absorver uma palavra de cada vez? Além do mais, se pretendo ler dez ou vinte rolos, digamos, num fim de semana no Mar Morto, basta pedir a um escravo que amarre em nosso jumento o baú ou vaso onde os guardo, antes de partirmos.

Outra vantagem que os aficionados à nova tecnologia não se cansam de apontar é a facilidade de se achar um texto rapidamente, dada a existência da tal “lombada”. Se bem entendi, trata-se de uma das superfícies do “livro”, oposta à que se abre, onde pode-se escrever o título da obra. Ah, filisteus! Não sabem que o prazer da busca reside no caminho percorrido mais do que no objeto encontrado? Nunca viveram a delícia de tirar todos os rolos dos vasos e desenrolá-los, e na procura de um texto dar de cara com outros há muito lidos e esquecidos, e rememorar os dias da mocidade, quando o mundo era calmo e seguro, não havia cristãos rebelando-se nem invenções cretinas ameaçando a ordem?

Ouçam o que eu digo, filhos de Deus: nós lemos muito bem com o pergaminho por mais de um milênio e não há por que supor-se que assim não o faremos até o fim dos tempos. “Livro” é invencionice desses cristãos novidadeiros e um e outro devem desaparecer antes que você termine de ler o rolo de sua preferência. Páginas?! Lombadas?! Messias?! Quem acredita nessas sandices?
(Antonio Prata)

E você, acredita nisso?

beijos

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Grave, o recado

>> quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Querido Antonio Prata
Desta vez eu também vou concordar com os seus amigos.
Eu detesto recados nos celulares, ainda mais no atual aparelho (que tem apenas um ano e já está super/mega ultrapassado) que eu tenho que apertar umas 3 teclas pra desbloquear e colocar a senha.
Então, SMS é bem melhor.
Ainda não tenho serviço de e-mail no celular, estou na fase de pensar se isso seria bom ou não.
Meus filhos não vivem sem, estão ligados o dia todo.
Mas eu não sei..... será que eu quero isso pra mim?
Um abraço
* * * * *
Descobri que a birra com relação 
deixar recado no celular é 
consensual, quase falta de educação
* * * * *

Descobri por esses dias que deixar recado no celular saiu de moda. Pior, tornou-se quase falta de educação, algo assim como pedir dinheiro emprestado ou mordida de sanduíche.
     Fiquei sabendo desta nova cláusula da etiqueta ao ligar para uma amiga, advogada. Ela não atendeu, entrou a gravação e eu já estava pensando em alguma gracinha para dizer, uma dessas bobagens inúteis e carinhosas que regalamos às pessoas queridas -como um bombom que se larga na mesa de uma colega de trabalho, na volta do almoço-, quando dei com as torpes palavras: "Oi, aqui é a Mariana, POR FAVOR, NÃO DEIXE RECADO, prefiro que me mande uma mensagem de texto".
     Eu, ingênuo, achei que o problema era da Mariana. Tadinha, tá trabalhando muito, ralando ali naquele balcão de tragédias que é o exercício do direito; normal que, em nome de causas maiores, tenha deixado para trás os pequenos prazeres da vida. Como não queria ser responsabilizado pela condenação de inocentes ou pela absolvição de criminosos, desliguei o telefone antes do bip e esqueci o assunto.
     Até que, anteontem, liguei para um amigo músico. Vejam bem: mú-si-co. E não é que ouvi o mesmo desaforo? "Oi, aqui é o Jaime, NÃO DEIXE RECADO, me manda um SMS ou um e-mail e eu te respondo, tá?". Não, Jaime, não tá. O que é isso, companheiro?! Cê é controlador de voo? Motorista de ambulância? Vendedor de amendoim em final de campeonato? Não; então não enche o saco e ouve meu recado, que eu te conheço desde o jardim 2 e acho que mereço 27 segundos de seu tempo, cazzo!
     Fossem só a Mariana e o Jaime, tudo bem, mas assuntei por aí e descobri que a birra é consensual. "Se o bina nos informa quem ligou e o SMS e o e-mail dão conta de qualquer mensagem, pra que perder tempo escutando aquela ladainha?", dizem.
     Realmente, tem sua lógica. Sugiro, aliás, aplicá-la a outras esferas do comportamento humano, de modo deixar nosso cotidiano mais eficiente. Por exemplo: se já existem vitaminas em pílulas e carboidrato em gel, pra que fazer uma refeição? Ou; uma vez inventada a inseminação artificial, vamos parar com esse arcaísmo de botar-se nu sobre outra pessoa, igualmente nua, e ficar indo, vindo e grunhindo? Céus, que época para se viver!
     Não, talvez não seja a época, mas a idade em que me encontro, em que se encontra a maioria das pessoas com quem convivo: 30 e poucos anos. Essa presunção estúpida de que cada um de nós é uma engrenagem fundamental na máquina do mundo, elo importantíssimo no processo de fritura do torresmo.
     Estou fazendo graça; sinto-me um tanto hipócrita. Não fujo à regra. Também ando por aí, afobadinho e ansioso, querendo otimizar meu tempo, com raiva dos outros sempre que se tornam obstáculos à plena realização das minhas capacidades produtivas.
     Que ridículo. No fim das contas, o único momento em que seremos 100% produtivos, em que nem uma célula será desperdiçada e nem uma caloria gasta em vão, é quando virarmos adubo para o capim do cemitério. E nessa hora, meus caros, enquanto estivermos devolvendo ao cosmos a energia que nos foi brevemente emprestada, não precisaremos nos preocupar: ninguém vai telefonar para atrapalhar nosso trabalho. Ou melhor, o das minhocas.
antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata

beijos

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Querida e horrorosa cidade

>> quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Bom, que eu gosto das crônicas do Antonio Prata todo mundo já sabe, e hoje, claro, ele está falando sobre o aniversário de 458 anos da cidade que moro: São Paulo.
E vou copiá-lo para cumprimentar essa cidade que nos cansa muito mas que também nos dá muito orgulho:
Parabéns minha querida e horrorosa cidade.
* * *
Uma Virada Cultural por ano não
pode competir com um motoboy
morto por dia em São Paulo
* * *

Às vezes acontece de criticarem um amigo e eu não poder discordar: é verdade, ele tem mesmo tais e tais defeitos. Nada do que disserem, contudo, mudará meus sentimentos ou a nossa relação. Afinal, laços de amizade não são criados a partir de uma planilha do Excel, onde analisamos os prós e os contras da pessoa para, então, decidir nos aproximar; nascem de acasos e necessidades mais difusas que, geralmente, já se perderam no passado. O sujeito pode ter mais falhas que a defesa do Íbis, mas há dez anos vocês jogam pôquer semanalmente, já passaram alguns Réveillons juntos e quando aquela "stronza" te deu um pé na bunda, na madrugada de uma remota terça-feira, ele apareceu no seu apartamento meia hora mais tarde, com uma garrafa de Seleta numa mão e um disco do Tom Waits na outra.
     Tais ruminações me acompanham desde domingo, quando participei de um programa de rádio sobre o aniversário de SP e me dei conta de que viver aqui é como amar o amigo calhorda. Claro, a cidade tem muitas qualidades, que tentei enumerar no bate-papo, mas quanto mais falava em "programação cultural", "vida noturna" e "restaurantes", mais hipócrita me sentia: é impossível negar que nossos defeitos superam, em muito, nossas virtudes.
     Uma Virada Cultural por ano não pode competir com um motoboy morto por dia nem todos os impressionistas reunidos no Masp serviriam de tapume para nossa feiura. Aqui, a falência do urbanismo está tanto na pobreza -os mares de lajes batidas- quanto na riqueza -os espigões com colunas jônicas -homenagem ao glorioso império-românico-ultramarino que, como todos sabem, precedeu a chegada dos tupis-guaranis?
     São Paulo é violenta, arisca, injusta. O único momento em que vislumbramos uma sociedade igualitária é na hora do rush: todo mundo parado, respirando o mesmo monóxido de carbono. A cidade não existe como um espaço comum: é a distância que nos separa, uma ausência ou, então, um obstáculo. No entanto, gostamos dela. Por quê?
     Só entendi o óbvio ululante quando minha colega Barbara Gancia, que também participava do programa de rádio, tomou o microfone e, fugindo do meu clichê de "vida noturna & programação cultural", foi direto ao ponto: "São Paulo é onde estão as pessoas que eu amo: minha família, meus amigos, meus colegas de trabalho". Simples assim.
     Falemos o que for sobre esta metrópole banguela, mas é aqui que nascemos ou para cá nos mudamos, aqui nos apaixonamos, levamos pés na bunda e somos consolados. É o contrário daquela piada em que Deus termina de fazer o Brasil, irretocável em suas belezas naturais e diz: "Agora espera só pra ver o povinho que eu vou botar lá". Não somos o paraíso mal frequentado, mas um inferno cheio de pessoas queridas.
     Caetano talvez tenha acertado ao nos chamar de "túmulo do samba", mas foi ainda mais feliz no final do mesmo verso, ao apontar o "possível novo quilombo de Zumbi". Falta muito, claro, para fazer desse quilombo uma cidade, mas somos jovens, temos só 458 anos (quase nada comparado à Roma, Istambul, Bombaim) e muita gente boa, disposta a trabalhar. Há que ser otimista -afinal, pior do que tá, não fica.
     Feliz aniversário, minha querida e horrorosa cidade.
Blog "Crônicas e Outras Milongas"
antonioprata.folha.blog.uol.com.br

beijos

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O resgate das escovas milenares

>> quarta-feira, 11 de janeiro de 2012


Sair de férias é muito bom, quem não gosta? Geralmente encontramos pessoas que também estão de férias, então o astral está ótimo, quase não vemos pessoas emburradas, afinal quem sai de férias pra se estressar?
Aproveitamos para ler um bom livro, conhecer lugares, gente e comidas diferentes.
Na volta, estamos com uma nova carga de ideias e projetos para o novo ano que se inicia.
(Inicia agora ou só depois do carnaval?).
Mas, esta semana quando retornei, percebi que nessas duas ou três semanas ausente, senti falta de alguma coisa. Sabe quando a gente se acostuma a ler uma reportagem semanal e sente saudade da pessoa que escreve como se ela fizesse parte da sua vida?
Então, hoje eu percebi que estava com saudades da coluna do Antonio Prata no jornal.
Tudo bem, eu poderia ter procurado na internet, mas estava de férias dela também.
Férias são.................. férias.
Mas hoje ele está aqui novamente e eu já ganhei o meu dia.
(imagem Google)
"UMA ESCOVA de dentes pode levar até mil anos para se decompor", disse o narrador do documentário, e eu senti um aperto no coração. Não por conta do dano ecológico causado pela luta contra o tártaro e a placa bacteriana, mas pela imagem criada em minha cabeça: todas as escovas que já usei, fiéis companheiras por dois ou três meses, abandonadas em distantes aterros sanitários, junto a tomates podres, calotas rachadas e carcaças de geladeira; as cerdas espanadas balançando ao vento ou servindo de morada às larvas na escuridão, "per saecula saeculorum".
     As pessoas, quando morrem, morrem; as escovas, não. Ficam por aí. Desde a primeira que eu tive, aquela usada por minha mãe para limpar um único dente, em 1978, até uma Colgate branca e azul, que deixei no lixinho do banheiro em Paraty, no dia 2 de janeiro. Agora, sempre que fecho os olhos, vejo as pobrezinhas, condenadas a um milênio de solidão.
     Seria possível resgatá-las? Digamos que eu tivesse muito dinheiro, que eu fosse o Bill Gates e contratasse cientistas da Nasa, criasse ferramentas, pusesse uma legião de trabalhadores a peneirar lixões... Não, impossível, mesmo que encontrasse todas as escovas do país, em meio a sacolas plásticas, pitangas e Ataris, como saber se aquela TEK vermelha, macia, tamanho médio, modelo 1987, é a mesma que eu usei durante a quinta série ou outra qualquer? Só daria para identificá-las se eu tivesse marcado nos cabos, digamos, com uma ponta de faca quente, as minhas iniciais. Mas que tipo de pessoa faria uma coisa dessas?
     Taí: Kim Jong-un, o novo ditador norte-coreano, talvez seja capaz de recuperar suas escovas, caso queria. Ou você não acha que os ditadores têm escovas de dentes personalizadas, com seus nomes gravados, belas insígnias em dourado e frases encorajadoras como "Bom dia, ó raio de sol que brilha para o universo!"? Bastaria a ele, portanto, tirar umas 500 mil pessoas do campo e das fábricas e botar para garimpar os aterros do país, até que separassem, das montanhas de escovas proletárias, todas as escovas ditatoriais.
     Seria até bom para Kim Jong-un: uma meta, uma missão, totalitarismos precisam disso. O déspota poderia declarar que suas escovas de dentes são objetos sagrados, ou que, através delas, os sequazes do capitalismo conseguiriam obter seu DNA e criar um veneno para matá-lo. "Nem uma escova deixada para trás!", seria o slogan. Ou: "Até a última cerda!".
     Durante a busca haveria mortos contaminados por lixo hospitalar e atômico, por leptospirose e vítimas de inanição, claro, mas para estes seriam erguidas estátuas e se cantariam hinos, até o dia em que, décadas mais tarde, Kim Jong-un declarasse a busca terminada, e fizesse o Grande Museu das Escovas de Kim Jong-un, e o povo choraria de felicidade, pois saberia que, se fora capaz de recuperar todas as escovas do majestoso líder, seria capaz de tudo.
     Isso, o Kim Jong-un, claro, não eu, pois minhas escovas são iguais às de todos os outros, e ficarão mil anos por aí, em lixões em Sapopemba e Perus, e sobreviverão a mim, a você, aos ditadores coreanos, à própria Coreia e a sabe-se lá mais o quê. Ê, mundo estranho da porra!
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beijos

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No caso, com certeza!

>> quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ah! aposto como vocês já estavam com saudades dele!!! Mais de um mês ausente? Sumiu assim sem dizer nada?
Mas hoje, mesmo sem sol, ele retornou para tirar de nossas vidas (não o bolor, esse acho que só a partir de amanhã), do nosso semblante, vários sorrisos, ou porque não, divertidas gargalhadas.
Com vocês, novamente, Antonio Prata. Não é pra gostar, muuuuiiiitttooo???

* * *
Se ele disser que 'no caso, Aspirina
a gente não vai tá tendo, hoje', a
coisa muda completamente de figura
* * *

Equivoca-se quem pensa que falar bem é falar claro. A arte da retórica reside, na verdade, na habilidade de confundir. Afinal, se digo algo e você entende de cara, vai logo se achando mais inteligente do que eu: mau negócio. Se, contudo, sou capaz de temperar as frases mais simples com um molho de obscuridade, com uma calculada pitada de empulhação, o ouvinte pensará que sei mais do que revelo: ponto para mim.
     Vejamos: você entra numa farmácia, pergunta se tem Aspirina e o funcionário responde com um peremptório "não". O que você pensará? Que aquela é uma farmácia ruim. Se, porém, ele disser que "no caso, Aspirina a gente não vai tá tendo, hoje", a coisa muda completamente de figura. O "no caso" sugere que, numa situação normal, ele teria Aspirina. Logo, "hoje", estamos numa situação anormal. Qual seria essa situação? Haveria um surto de enxaqueca, no bairro? Boatos de que a Copa e as Olimpíadas levariam à falta de ácido acetilsalicílico teriam desencadeado uma busca frenética pelo produto? Você não sabe, ele sabe, e, num segundo, o que era uma farmácia vagabunda transforma-se numa farmácia sob estado de exceção, enquanto você, em vez de um cliente insatisfeito, torna-se um náufrago à deriva no mar da especulação.
     Convencido de que aquele é um estabelecimento digno, de que só não tem os comprimidos de que necessita por conta dos misteriosos eventos pregressos, você resolve dar uma segunda chance. Em vez de ir à farmácia da outra esquina, pergunta se haverá Aspirina, no dia seguinte. O funcionário sorri: "Com certeza!".
     "Com certeza!" é irmã de "no caso". Ambos são filhos da obscuridade com a empulhação. "No caso" é o rebento discreto, melancólico e introspectivo, "com certeza!" é falante, solar e brincalhona. Os dois, contudo, trazem a mesma carga genética: fazem-nos crer que, por trás da vaguidão ou do entusiasmo escondem-se importantes e desconhecidas informações.
     Vejamos: se o farmacêutico respondesse com um mero "sim", o que você pensaria? Que as Aspirinas chegariam amanhã por alguma razão prosaica, talvez porque toda quinta-feira elas chegam e não há aí nenhum mérito do funcionário. Já o "com certeza!" instaura aquele estado de exceção: tamanho júbilo e segurança sugerem que a chegada das Aspirinas é o resultado de grande esforço. Você imagina o farmacêutico ameaçando o distribuidor, dizendo que se não receber o carregamento até as oito da manhã vai fechar um acordo de exclusividade com o Bufferin; você o vê mandando comprar Aspirinas em outras farmácias, no meio da madrugada; vislumbra-o pedindo para um primo mandar dezenas de cartelas via Sedex 10, diretamente da matriz, na Alemanha -e, por um momento, acredita que ele seja capaz até de acabar com a greve dos Correios.
     Que beleza é a oratória! Você não sabe o que o sujeito fez para conseguir as Aspirinas.        Não sabe sequer por que faltaram Aspirinas. Ignora, aliás, muitas outras coisas neste mundo feito de dúvidas irremediáveis, mas algo, no caso, você sabe: que amanhã, naquela farmácia, haverá Aspirinas, com certeza!
     Se este farmacêutico não domina a arte da retórica, não sei quem poderia dominar.

antonioprata.folha@uol.com.br 
@antonioprata 
Crônica publicada na Folha de São Paulo - caderno cotidiano 12/10/11

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* * *
PS: Eu tenho várias coisas acumuladas aqui para postar:
- Contar um pouco da minha viagem e mostrar fotos das estátuas do Coliseu. Você já viu estátuas lá? Eu descobri.
- Contar do lançamento de uma coisa maravilhosa para nós mulheres, não, para os homens também, principalmente os que moram sozinhos. É uma Agenda de Casa, que ajuda e muito no cumprimento das tarefas do lar. Daqui a alguns dias. Acompanhe aqui.
- Você acha que combina? Michel Temer e os Menudos? Não? Pois você vai ver aqui também. Mais alguns dias.


beijos

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Não funciona - Antonio Prata

>> sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Vocês, amigas que me acompanham aqui já sabem: eu gosto muuiiitttoo do Antonio Prata, tanto que sempre publico suas crônicas aqui. Por que faço isso?
Primeiro, pra guardar pra mim mesma. Aqui eu sei que no momento que quiser, posso voltar a ler.
Segundo, porque sei que tem muitas pessoas que também gostam dele e não assinam o jornal, daí teriam que procurar na internet (coisa fácil eu sei) mas se já estiver aqui, é um trabalhinho a menos nessa nossa vida tão corrida.
* * * * *
Com o intuito de facilitar um pouco
nossa passagem pela Terra, fiz uma
pequena lista com alguns estorvos

SE os princípios da seleção natural valessem para os objetos criados pelo homem, estariam extintos há muito tempo o chuveiro elétrico, o repelente em espiral e o sachê de ketchup. É curioso: enquanto a natureza, esse monstro acéfalo, paga regiamente seu tributo à perfeição, mandando pro beleléu tudo o que não se adapta (alô, Neandertal!), nós toleramos uma quantidade absurda de inutensílios, como se suas existências fossem incontornáveis feito a morte, os impostos e a trilha sonora do vizinho. Não são! Com o intuito de facilitar um pouquinho nossa tão atribulada passagem pela Terra, fiz uma pequena lista com alguns desses estorvos.
     Sachê de ketchup. A pior realização da humanidade, depois da versão orquestrada de Ilariê. Nas lanchonetes sempre nos dão logo cinco saquinhos, pois sabem que não conseguiremos abrir os quatro primeiros, mesmo que nos atraquemos com unhas e dentes àqueles sarcásticos dizeres: "Rasgue aqui".
     Chuveiro elétrico. A segunda pior realização da humanidade, depois do sachê de ketchup e da versão orquestrada de Ilariê. A água só esquenta de verdade se não abrirmos quase nada a torneira: sob o fiozinho escaldante que escorre da ducha (sic), é como se você estivesse com o cocuruto no Saara, a barriga no Ártico, a bunda na Patagônia e os pés -bem, não se preocupe com os pés, pois após cinco minutos eles terão congelado e perdido toda a sensibilidade.
     Repelente em espiral. Tem um cheiro gostoso, remete-me à infância e é bonito de ver queimando no escuro; mas, enquanto me deleito em meio ao torpor hippie-praiano, pernilongos e borrachudos deleitam-se com meu sangue. Repelente em espiral só repele os mosquitos de si próprio. E olhe lá...
     Rede. Rede é lindo, rede é Brasil, é um objeto maravilhoso - mas não para se deitar. Quando você encontra a posição das pernas, perde a da cabeça, quando ajeita a cabeça, desarruma as pernas... Acho que as redes deveriam ser penduradas abertas na parede, como um quadro, uma peça de tapeçaria.
     Secador de mãos a ar. Funciona muito bem -se você não tiver mais nada a fazer pelo resto da tarde, além de ficar virando as mãos de um lado pro outro, dentro de um banheiro público, só para que o dono do estabelecimento economize R$ 0,05 em folhas de papel. E não me fale em ecologia, pois o secador é elétrico, somos todos adultos e sabemos que a eletricidade não vem da cegonha: por mais limpa que seja, é sempre fruto de alguma sacanagem com o ambiente.
     Embalagens de plástico duro. Estou há uma semana tentando tirar meu mouse novo de uma dessas armaduras plásticas. Ontem, fui comprar uma tesoura e - inferno!- ela vinha com a mesma inviolável carapaça.
     Quando nossa civilização acabar e só restarem ruínas, essas embalagens resistirão, incólumes. Sobre nós, dirão os homens do futuro: "Eram ignorantes, crédulos e autodestrutivos, mas, caramba, que embalagens produziam!".
     A lista das coisas que não funcionam é longa, caro leitor, mas a coluna é curta, de modo que devo parar por aqui. Prometo retomar o assunto noutra oportunidade e abordar uma variação muito importante do tema: as ideias que não funcionam. Adianto aqui algumas delas: pintar a própria casa, camping e relação a três. Até breve.
(Folha de São Paulo, 28/09/11)

antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata

FOLHA.com
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Vocês leram que ele prometeu continuar a lista, mas nesta semana ele publicou uma outra crônica "Anistia para o tomate seco", e explica porque não continuou a lista.
Vamos ajudá-lo? Acho que todo mundo tem coisas que consideram inúteis no seu dia-a-dia, na sua vida. Me digam e eu vou enviar pra ele, ok?


beijos e bom final de semana
HOW COULD I KNOW

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Nhenhenhe

>> domingo, 25 de setembro de 2011

Às vezes me pego observando uma pessoa - não vou dizer quem é - à mesa, dizendo pra namorada: - você quer mais salada?
Normal não é? 
É, se isso tivesse sido dito na voz normal, mas não foi.
Foi mais ou menos assim que eu ouvi: amorzinho, voxê quer mais saladinha?
isso me faz voltar no tempo, ainda quando trabalhava no banco.


Sentada à minha mesa, conferindo coisas do dia, de repente começo a ouvir umas coisas estranhas, palavras que não entendo. Não estou prestando atenção, mas a pessoa em questão - no caso, uma colega de trabalho - está falando na mesa ao lado, colada à minha:


- Ah! nhenhé, vamos vai? Nhenhé, eu te amo. Não, não vou desligar, desliga você, um beijinho, não, sou eu que te amo mais, 20 beijinhos, não nhenhé, não quero desligar ....


Uma outra amiga, na época estudante universitária em outra cidade, ao se despedir - em lágrimas - do namorado:

- Forinho, eu não quero ir. Eu vou ficar com muita, muita saudade. E ele, nos seus 1,85 m, quase 100 kgs, tentava acalmá-la dizendo que na próxima sexta-feira já iriam se ver de novo.
- Foro, forinho, voxê vai me esperar? E assim ia até o motorista do ônibus, já de saco cheio de tanta milonga ameaçar partir sem ela.
 Daí, ao ler essa crônica, me lembrei desses momentos.
Já fiz isso? Claro que já, início de namoro, nós nos chamávamos de ....... ah! deixa pra lá........ mas não consigo mais me situar, e também não tinha ninguém como ele (Antonio Prata) pra me alertar.

imagem google

VOZINHA

"QUANDO VEJO um destes sujeitos que tentam disfarçar a careca esticando ralas melenas por cima do cocuruto, de orelha a orelha, me ponho a pensar: será que o infeliz não percebe o fracasso da gambiarra? Não se dá conta de que a lustrosa calva está tão escondida quanto o sol atrás de uma peneira?
     Não, ele não percebe, pois o "comb-over", como os americanos chamam esse equívoco estético (ou "sobrepenteado", numa descabelada tradução), não é o tipo de mau passo que se dá da noite pro dia, mas o resultado de um lento processo; e se é verdade que devagar se vai ao longe, também é certo que a evolução gradual dificulta a compreensão de que se foi longe demais. Numa bela tarde, no fim da adolescência, o indivíduo faz um meneio com a cabeça, jogando a franja por cima de uma entrada incipiente -nem desconfia que, duas décadas mais tarde, estará andando por aí com uma espécie de persiana colada à cachola.
     Solidarizei-me com a turma do puxadinho capilar ao ser acusado, semana passada, de ser praticante de uma outra modalidade de cega degenerescência, tão comum quanto o "comb-over" e, talvez, ainda mais nefasta. Estava num táxi, ao lado do Paulão, colega de trabalho, falando ao celular com minha mulher. Assim que desliguei, Paulão soltou, com indisfarçável sarcasmo: "Nossa, Antonio, nunca imaginei que você fizesse 'vozinha'". Meu mundo ruiu.
     Até então, tinha cá para mim que o tom utilizado para falar com meu amor era absolutamente republicano. Simpático, sim, doce, claro, mas jamais, jamais, jamais descambando para algo que pudesse ser enquadrado como "vozinha" -aquele timbre meloso e infantil que alguns casais adotam, como se falassem com ursos de pelúcia.
     Arrogante, cria-me imune a tal comportamento, coisa de gente que grita apelidos íntimos na seção de laticínios do supermercado, que se chama de "pai" e "mãe" -e nem sempre na presença dos filhos-, que espreme cravos em logradouros públicos.   Ao que parece, contudo, a "vozinha" é como o "comb-over", lenta e insidiosa: você pode estar usando e não sabe. Numa bela noite, no começo da relação, o indivíduo diz um sóbrio "eu te amo", ao despedir-se da namorada -nem desconfia que, duas décadas mais tarde, estará no elevador da firma, falando em alto e bom som: "Titchucão num qué disligá! Diliga voxê, Titchuquinha!".
     Defendi-me atacando. Como meu colega podia fazer tamanha acusação sem provas cabais?! Com um sorriso no rosto, Paulão apresentou as evidências: disse que eu havia atendido o celular falando "Oi, Coisica linda!" e, por seis vezes, teria usado o apelido "Pequenina". Então, dando a estocada final, perguntou: "E ela? Te chama de quê?". Fiz uso do direito constitucional de não apresentar informações que possam ser usadas contra mim e permaneci calado.
     Ontem, tive uma conversa séria com minha mulher. Temos que parar com isso. Ela, contudo, jura que nosso tom não configura uma situação de "vozinha" e que há um enorme fosso entre o carinhoso e o debiloide. Não sei, não. Também os carecas, diante do espelho, todas as manhãs, devem repetir mantras de autoengano, enquanto puxam as costeletas para o alto e as encharcam de laquê. É ou não é, Tichuquinha linda do Titchucão?"

Folha de São Paulo - caderno cotidiano - 21/09/11
antonioprata.folha@uol.com.br
 @antonioprata


E você, já fez ou ainda faz Vozinha? Ah! conta vai! rsrsrsrsrsrs



beijos

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PUM?

>> quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Hoje, quarta-feira, 7 de setembro.
Não, não vou falar sobre a Independência do Brasil.
Quarta-feira é dia de?
Isso mesmo.......... Acertou quem disse Antonio Prata.
Quando vocês se cansarem dele me avisem tá?
Do 'pum'
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Salvo engano, é a primeira vez que
um pum vira manchete, e eis aí um
fato da maior importância
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(imagem google)
Passei segunda-feira escrevendo a crônica que deveria ocupar este espaço. Era seriíssima, sobre a morte, tinha arroubos de lirismo e aspirava mesmo a alguma profundidade. Após terminá-la, resolvi perambular pela internet, para dar uma espairecida. Qual não foi meu assombro ao ler, na página do UOL, a seguinte manchete: "'Pum' foi lamentável, mas não fez Fla perder, afirma Luxemburgo".


     Minha primeira reação, após o susto, foi a descrença. Não entendo muito de futebol. Talvez "pum" fossem as iniciais de uma regra -"Pontos Unificados da Média"?-, que prejudicara o Flamengo, na tabela. Quem sabe, "Pum" seria uma torcida organizada -"Palmeirenses Universitários de Mucuri"?-, acusada de atirar pedras no ônibus rubro-negro, a caminho de tal partida. Cheguei a pensar que "pum", sempre entre aspas, na matéria, pudesse ser uma jogada nova, importada da Inglaterra, espécie de paradinha, proibida pela FIFA. Imaginei o atacante do time adversário praticando um "pum" desleal e marcando o gol da vitória.


     Ao clicar na manchete, contudo, descobri que pum era pum mesmo - e meu coração bateu forte, como o de uma criança ouvindo pela primeira vez um palavrão sair da boca de um adulto.


     A matéria começava assim: "O técnico Vanderlei Luxemburgo negou que o "pum" que um jogador (ainda não identificado) soltou durante sua preleção tenha sido um dos causadores da derrota por 3 a 1 para o Bahia, no último domingo". Ainda segundo o texto, Luxa teria ficado possesso com o riso desencadeado pelo traque e abandonado o vestiário. No dia seguinte, o Flamengo perdeu o jogo.


     Queria parabenizar o UOL pelo pioneirismo. Salvo engano, é a primeira vez que um pum vira manchete, e eis aí um fato da maior importância. Afinal, se a flatulência causou tal estrago numa preleção, que desconfortos, desentendimentos e tragédias não terá acarretado, ao longo da história?


     Imaginem um pum no plenário da ONU. Nas prévias eleitorais. Em negociações entre patrões e empregados. Terá o pum sido utilizado em interrogatórios? Haverá a CIA criado a simulação de pum, assim como inventou a terrível simulação de afogamento? Sem falar no perigosíssimo pum medieval, época em que reinos sustentavam-se sobre casamentos arranjados e alimentos pútridos.


     Se nada sabemos sobre esses acontecimentos é porque, durante o século 20, a história esteve sequestrada pelo viés econômico. Nem a escola dos "Annales" -sem trocadilho, por favor-, com sua abertura metodológica, chegou a levar o pum a sério. E, no entanto, como provam a matéria do UOL e a experiência cotidiana, o homem não é governado somente por desejos materiais e conflitos políticos: move-se também por impulsos mais etéreos e -com trocadilho, por favor - intestinos.


     Podemos tentar fugir de nossa pequenez construindo foguetes, fazendo abdominais ou escrevendo crônicas sobre a morte, com arroubos de lirismo e profundas aspirações, mas no fim das contas -e era isso que eu queria dizer em meu texto anterior, quando fui interrompido pelo anônimo traque, assim como Luxemburgo, na preleção-, não somos mais do que uns risíveis primatas que nascem, crescem, morrem e, neste ínterim, soltam uns puns por aí.

antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata
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beijos e bom feriado

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Quem protege as palavras?

>> quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Eu dei uma parada no trabalho, entrei no blog e já estava copiando o texto pra postar quando pensei: 
- Ele de novo? O que as pessoas vão pensar de eu colocá-lo novamente?
Toda semana agora?
Mas, pensei também: quando a gente gosta de alguém, não quer estar pertinho, sempre junto?
ou, quando apreciamos uma comida ou um doce, não estamos sempre comendo?
ou, quando gostamos muito de um lugar, não fazemos o possível pra estarmos sempre lá?
Então está decidido: Ele, Antonio Prata, estará sempre por aqui.
Vou contar uma coisa pra vocês. Todo dia quando desço para tomar café, o jornal já está ali na mesinha, e, às quartas-feiras a primeira página que abro pra ler, adivinhem o que é?
A coluna dele, claro. E hoje mais um artigo me encantou, tanto que estou pensando em fazer o que ele diz no último parágrafo. Vocês topam?
Leiam, e se concordarem, vamos ajudá-lo?


Os mercadores de Veneza
Chamar as prateleiras do supermercado de gôndolas é como construir prédios no meio do Ibirapuera
* * * * * * * * * * * * *
FOI COM GRANDE assombro e não menor repúdio que eu descobri, dia desses, que as estantes dos supermercados chamam-se gôndolas.
Até então, tinha cá para mim que gôndolas eram utilizadas única e exclusivamente para levar casais apaixonados, espiões russos e turistas japoneses pelos canais de Veneza. Jamais imaginaria que esse mesmo substantivo pudesse, encalhado num piso de linóleo e sob o tremelicar quase imperceptível das lâmpadas fluorescentes, sustentar pacotes de biscoito, caixas de sabão em pó, gordura vegetal hidrogenada.
     Nunca fui a Veneza. Talvez seja melhor assim. Sua existência, não confirmada pessoalmente, continua a fazer parte do meu imaginário infantil: a cidade cujas ruas são feitas de água está para São Paulo como os unicórnios para os cavalos, os vulcões para as montanhas, os dinossauros para as lagartixas. E, se o chifre do unicórnio não é qualquer chifre, mas uma lança espiralada, inexistente noutros animais, os barcos da cidade aquática tampouco poderiam ser meras lanchas ou canoas: são gôndolas, com suas pontas curvas como as dos sapatos do Sultão d'As Mil e Uma Noites, de Ali Babá e Seus Quarenta Ladrões, dos gênios que surgem da lâmpada, em meio à fumaça, prontos a realizar três desejos. Alguma semelhança com prateleiras de fórmica e aço inox, caro leitor? Não, não, eis aí um atentado contra a língua, um crime de lesa-poesia que deve ser reparado o quanto antes.
     Veja bem: as cidades têm regras para protegê-las da voracidade do mercado. Planos diretores, leis de zoneamento: ali pode prédio, aqui não. A propaganda tem leis para conter a falta de escrúpulos dos anunciantes: álcool não deve ser anunciado para menores de idade, cigarros estão proibidos de patrocinar eventos esportivos. O próprio mercado precisa ser regulado externamente. As palavras, contudo, quem as protege? Ninguém. Um dia, um infeliz decide batizar as estantes de gôndolas e pronto, o mal está feito.
     Trazer a gôndola dos canais de Veneza para as seções de laticínios é, para a linguagem, equivalente a construir um prédio no meio do Ibirapuera, para as cidades. Uma gôndola de supermercado, meus amigos, é um unicórnio abatido para, do marfim de seu chifre, arrancarem cinzeiros e bolas de sinuca.
     Minha bronca com esse sequestro semântico é tanta que, se nesta manhã fria, enquanto escrevo a crônica, me aparecesse um gênio da lâmpada, com seus gondulares sapatões, incluiria no pacote de desejos o pedido para que rebatizasse as prateleiras dos supermercados, restituindo assim à gôndola a grandiosidade arruinada por latões de óleo de soja e saquinhos de Miojo.
     Ou os mercadores dão às estantes um nome apropriado - estantário, prateleiral, "trúncio", por que não?- e devolvem à humanidade esse belíssimo substantivo, ou lançarei uma ampla contraofensiva na internet, com apoio de poetas, de escritores e da máfia italiana: passaremos a chamar cartão de crédito de avestruz, caixa registradora de asa-delta e crachá de buganville. Para cada grama de lirismo que nos foi roubado, um grama será devolvido, impiedosamente.
antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata 


beijos

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