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Blogagem Coletiva - Sentimentos - Raiva/Ódio

>> sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Quase todos os finais de semana eles estavam lá. Amigos há um bom tempo, filhos com a mesma idade, iam ao clube que eram sócios para se encontrar, conversar, fazer churrasco, praticar esportes, tomar sol, enquanto as crianças se divertiam entre elas e com outras que lá também estavam com a mesma finalidade: Se preparar para mais uma semana.
Ela gostava de tomar sol, queimar a pele clara que deixava a marquinha da parte de cima do biquine. O marido reclamava, não gostava que ela tomasse tanto sol, mas não adiantava; era só o dia estar bonito e lá ia ela se deitar numa cadeira ao lado da piscina. Mais tarde, iriam todos almoçar, tomar sorvete e pensar no que iriam fazer à noite.

Ela era professora do ensino fundamental e ele um engenheiro renomado. Depois de um tempo, ele resolveu fazer também arquitetura. Ela reclamou, pois iriam ficar muito tempo separados, já que ele iria estudar à noite, mas incentivou pois sabia que ele estava querendo muito. Ele se formou e montou um escritório junto com uma colega de turma.

Os finais de semana já não seriam os mesmos. De repente o celular dele tocava, e era a sócia pra falar dos projetos, de clientes. A mulher não gostava, é claro, reclamava, mas ele dizia que tinha até que agradecer, afinal ela estava trabalhando no final de semana.

Nesse meio tempo construíram uma linda casa num condomínio e foram pra lá. Não era nada fácil ir e vir todos os dias para a cidade, levar crianças na escola, trabalhar, mas pensavam: a vida tranqüila e a paisagem de lá, compensavam.
Num sábado à noite combinaram de se reunir na casa de um dos amigos no dia seguinte, para tomar café da manhã. Vários casais, as crianças, mesa grande arrumada, cada um trazia uma coisa, um tipo de pão, frios, bolo, a geléia feita em casa, bate-papo, piadas, risadas, e o assunto virou pra cinema. Um contou do filme que viu na TV naquela semana, outro disse que tinha ido assistir a estréia de Amor sem Fronteiras, quando ele disse que tinha visto também.



Ela então perguntou – Como assim, você assistiu? Nós tínhamos combinado de ir ver na semana que vem.
Ele então responde – Ah! Me esqueci, e como eu tive uma folga a semana passada fui ver. Mas também tudo bem; você não ia gostar.
Ela engasgou, ficou vermelha, provavelmente de raiva, abaixou a cabeça e continuou o seu café. Percebeu naquele exato momento que as coisas já não eram como antes.

O tempo foi passando, mais telefonemas acontecendo, mais desculpas, mais brigas, mais discussões, ora tudo bem, ora tudo ruim, até que o filho mais velho querendo iniciar o cursinho para vestibular quis voltar a morar na cidade.

Sozinho, não vai, o pai falou.

Resolveram então comprar um apartamento na cidade e morar ali durante a semana. A casa bonita ficaria para os finais de semana.
Acharam o apartamento, reformaram e já com as aulas começando vieram todos ...
menos ele.
Cada dia uma desculpa. Ela então percebeu que a coisa estava pior do que pensava, mas, não queria de nenhuma forma enxergar. Até o dia que ele mandou um motorista ir pegar as suas coisas. Ela assustada quis saber o que estava acontecendo e ele disse que não queria morar naquele apartamento, que a casa dele continuava a ser a outra casa.

Ela sofria, não entendia, mas não falavam em separação.

Quando alguém perguntava, ela se apresentava ainda como a sra. Fulana de Tal.

Mas um dia ela soube, por outra pessoa, que ele tinha comprado outro apartamento na cidade.
Ela não acreditou, não queria, não podia acreditar. Porquê? O que acontecera?

Esbravejou, quis falar com ele (que não atendeu), se fez mil perguntas, chorou sozinha e se aquietou. Os amigos que antes se reuniam muito, já quase não se viam. Não entendiam a situação que se formara, mas a amiga fiel estava lá, pronta, tentando lhe abrir os olhos que ela, firmemente mantinha fechados.

Até o dia que ela soube que ele tinha ido para o exterior em viagem de férias. Com quem?

Não precisavam dizer. Lá no fundo (mas era bem no fundo mesmo) ela sabia. Chorava e chorava muito, mas não na frente dos filhos. Não queria que eles sofressem em época de vestibular.

Ela não tinha se casado para isso, pensava.O amor deles era bonito, tiveram um casal de filhos lindos, tinham muitos amigos, uma carreira.

Ela chorava mais e se perguntava quando isso tinha começado. Se lembrou de que ficava enciumada com os telefonemas da sócia, mas ele tinha sempre negado que tivessem alguma coisa a mais do que trabalharem juntos.

Ela não sabia o que fazer. Não queria se separar, sem perceber que já estava separada há muito tempo. E porque ele então não decidia?


Ela sabia.
Sabia, tinha certeza que ele ia cair em si, se arrepender e voltar para ela como antes. Porisso não pedia o divórcio. E com essa esperança, seguia.

Vivia com os filhos, trabalhava e esperava os finais de semana como uma criança espera para ir ao parque. Nada acontecia, até que.....

Um dia, recebe o e-mail de uma amiga de muito tempo. Amiga de ambos.


Abre o e-mail, começa a ler, a tremer e seus olhos se enchem de lágrimas.


Lágrimas de dor, de raiva, de ódio, dele, da amiga que mandou o e-mail, da vida, do mundo.

Naquela pequena tela está o que ela mais temia que ele fizesse um dia, quando ligasse e pedisse para sair para conversar. Era assim que imaginava o fim.
Uma cena triste sim, mas uma cena de pessoas civilizadas, que tiveram uma vida juntos, filhos juntos, uma história.

Mas não, ali na sua frente, naquela telinha, está o pedido de divórcio, com cláusulas absurdas, enviado através de alguém para ser simplesmente assinado.


De repente, da sua garganta muda, um grito ecoou. Traspôs a parede, o prédio, as ruas, o bairro.


Fez eco em vários lugares. Os filhos ouviram; a amiga de sempre ouviu; ele e a amante ouviram, seus familiares ouviram, o mundo ouviu.


Um grito de medo, de angústia, de muita raiva guardada. De muito ódio acumulado.

Mas também um grito de libertação! 


Com o tempo, readquiriu forças, não assinou nada e começou a pensar numa socialyte que se separou há tempo atrás e que disse a seguinte frase:
"No caso da separação, senhoras, sejam fortes e independentes.
E lembrem-se: não fiquem com raiva, fiquem com tudo!"

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Risque - Orlando Silva

Risque
Meu nome do seu caderno
Pois não suporto o inferno
Do nosso amor fracassado


Deixe
Que eu siga novos caminhos
Em busca de outros carinhos
Matemos nosso passado

Mas, se algum dia, talvez, a saudade apertar
Não se perturbe, afogue a saudade
Nos copos de um bar

Creia
Toda a quimera se esfuma
Como a brancura da espuma
Que se desmancha na areia

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Essa postagem faz parte da Blogagem Coletiva - Sentimentos e Emoções, proposta pela Glorinha do blog Café com Bolo. Hoje falamos sobre Raiva/Ódio.

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