A sabedoria da insegurança

>> segunda-feira, 9 de maio de 2011

"O desejo de segurança é uma dor e uma contradição e, quanto mais nós o perseguimos, mais doloroso fica."
Allan Watts - filósofo inglês
Vocês já notaram como as pessoas estão querendo viver hoje o dia de amanhã?
Estou falando "as pessoas", mas, às vezes me pego fazendo isso também. Ao invés de viver bem o presente, ficamos fazendo perguntas, indagações, especulações sobre o futuro, quando sabemos que, o futuro, é totalmente incerto.
Estávamos conversando sobre isso em casa há uns 15 dias mais ou menos, e, na semana passada, encontrei esse artigo no jornal.

Vejam como é interessante: A sabedoria da insegurança

ALGUNS consideram minha mudança para cá, uma viagem sem volta para um país que nunca havia visitado, um ato de coragem, um pulo gigante. Não foi. Foi um passo gradativo, uma extensão de uma década errante.
Entre meus 20 e 30 anos, passei muito tempo pegando caronas pelos EUA com a placa: "Qualquer lugar menos este". Vir para cá foi uma separação de um lugar onde nunca me senti em casa.
Meus dias na estrada me fizeram sentir seguro sobre como viver no presente. Ao me colocar em uma situação aparentemente insegura por um tempo indefinido e aceitando suas consequências, aprendi a desenvolver uma segurança interior.
O filosofo inglês Allan Watts disse: "O desejo de segurança é uma dor e uma contradição e, quanto mais nós o perseguimos, mais doloroso fica".
Quer dizer, renunciar à compulsão por se sentir seguro torna você mais seguro.
Na época das caronas, eu vivia de bicos construindo casas, colhendo maçãs, trabalhando como barman e garçom e lia Watts. Essa jornada incluiu pausas maiores em cinco cidades americanas e europeias antes de chegar ao Rio, o refúgio ideal.
O jeito descontraído dos cariocas ajudou a me recuperar de uma cultura mais estressante e competitiva.
E, quando vi que podia sobreviver como jornalista freelancer, a pausa virou permanência. Eu tinha 33 anos. Agora, 28 anos depois, ainda sou freelancer. E viver à margem de uma profissão, como viajar à beira de uma estrada, ensina que a segurança vem de ter fé em si mesmo.
Os jovens de hoje não são aventureiros como no início dos anos 70.
Era uma época em que os jovens faziam viagens sem destino, fossem psicodélicas ou quilométricas, para abrir as portas da percepção e da autodescoberta.
Hoje, poucos jovens fazem essas odisseias. Uma economia global instável e mais competitiva acelerou as tentativas de entrar no mercado de trabalho. Muitos conhecem o terno e a gravata antes de conhecerem a si mesmos.
Para alguns, esse processo é um constante e imprevisível ato de autorreinvenção. Eu estudei zoologia e cinema, virei jornalista e depois cronista. E descobri que você encontra segurança não quando a procura, mas quando aceita os mistérios e as incertezas da vida. Não é uma busca externa, mas uma entrega interna. É a diferença entre passar pela vida e deixar a vida passar por você.
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MICHAEL KEPP, jornalista norte-americano radicado há 28 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)

beijos

17 comentários:

Palavras Vagabundas 9 de maio de 2011 20:46  

Macá,
queria ter vivido como esse cara!
bjs
Jussara
PS. Já vi uma entrevista com ele.

Bel Rech 9 de maio de 2011 21:41  

Eu queria tanto,deixei tanto e estou a procura do tanto...E a vida passa...profundo tudo o que ele disse, mas o tempo não dá para recuperar, dá para fazer melhor aquilo que não fizemos antes, diferentes é claro!!!Beijo

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez 10 de maio de 2011 05:24  

verdade. a gente vive muito o dia de amanhã, tentando adivinhar o que acontece, tentando evitar males, tentando planejar futuro. claro que tudo sempre sai diferente, dá uma frustração gigante fora a ansiedade gerada.

eu tb, qdo vim ao Japão vim meio nesse sentimento. De aventura, de não saber o que iria viver (eu não falava japonês, não sabia qse nada sobre o país, a não ser algumas coisas bem velhas e fajutadas)...
e fico pensando se não tivesse vivido esta aventura, acho que seria uma pessoa frustrada...

adorei esse post
bom dia

Celina Dutra 10 de maio de 2011 06:40  

Macá,

Amei o post.
Viver o agora é difícil porque o agora eu conheço e é neste agora que preciso fazer minhas escolhas.

Quando planejo, sonho o futuro, faço sonhando o ideal, como se me lá não houvesse escolha a fazer.
A segurança, como diz o jornalista, não está em fazer isso ou aquilo, em estar aqui ou ali, a segurança está dentro de cada um, é consequência do conhecimento de si mesmo que gera o fortalecimento interior para a perda sem culpa, sem medo, pois em toda escolha está implícita uma (ou até mais) perda, dependendo das alternativas que deixo pelo caminho.

Beijo carinhoso

Celina Dutra 10 de maio de 2011 06:45  

Correção:
"Quando planejo, sonho o futuro, faço sonhando o ideal, como se lá não houvesse..."

retirado o "me" antes de "lá".

Obrigada. Bjo.

Iram M. 10 de maio de 2011 08:03  

È verdade amiga,
Eu amo o dia do amanhã, mesmo sabendo que ele não me pertence. E se o amanhã for o dia 27 de maio, que eu julgo a me pertencer, conto as horas para que ele chegue logo.
MUITO BOM PARA REFLETIR SEU TEXTO.

Beijos

Luci Cardinelli 10 de maio de 2011 08:49  

Pessoas se preocupando com o amanhã e/ou presas ao dia de ontem e o presente deixado de lado. Tanta coisa deixando de ser vivida.

Ótimo post!

beijos e ótimo dia!

Beta 10 de maio de 2011 10:06  

Macá, sempre acreditei que precisamos de coragem para chegar em algum lugar...
Assim vou vivendo a vida, e está dando certo.

O medo prende e estagna!

bjks

Cris França 10 de maio de 2011 13:43  

Maca,

que texto ótimo, adorei ter lido

beijos pra vc

Monica Loureiro 10 de maio de 2011 19:35  

Menina,este post veio a calhar num momento crucial pra mim...

Lola Flor 10 de maio de 2011 20:26  

Oi Macá!

Vim retribuir a sua visita e encontrei esse post maravilhoso...

Tem muito a ver comigo, hoje estou com 36 anos, já iniciei três faculdades, fiz um curso técnico de estética no Senac, casei tive um filho, quase morri literalmente de depressão, fiz anos de terapia, separei, voltei, morei dois anos horríveis em Campinas, sempre me sentindo um pássaro fora do ninho.

Tomo medicação embora já esteja "absolutamente compensada" e não tenho a menor intenção de parar , pois nunca estive tão bem.

Estou no meio da graduação em pedagogia, faço parte de um projeto de pesquisa financiado pelo CNPQ e também do Projeto Ler e Escrever da Prefeitura de São Paulo, ainda sou mãe, blogueira esposa e arteira, ufah!

Quero abraçar o mundo com as pernas e essas experiências são continuidade de um processo iniciado há muito tempo.

Estou quase doida ultimamente de tanto trabalho, falta tempo pra tudo! Hoje estou muito mais presente em cada coisa que faço, sempre com paixão (essa é minha maior característica invariável.
Fiz uma grande loucura hoje, emprestei dinheiro do banco, juntei o restinho de limite do cartão de crédito e comprei um "net book" pra mim, meuzinho!

Agora vou poder trabalhar independente de estar aqui em casa na frente do computadorzão, que fica no andar superior no escritório do meu marido...agora eu tenho o meu, vou batizá-lo de "Treze" (nome de doidão...).
Agora, que sabe eu posso até twittar!? Amei o presente de mim pra mim.

Nossa falei tanto que quase virou um post!

Um grande beijo, Lola

Marli Borges 10 de maio de 2011 21:01  

Macá,
Um texto ótimo, pra lá de interessante. Veja: "E viver, (...), ensina que a segurança vem de ter fé em si mesmo."(...)
Também penso assim. A vida tem me mostrado que é assim.
Bjsssssss e obrigada por compartilhar.

Julio 10 de maio de 2011 21:20  

Não preciso nem te dizer, mas esse foi um dos textos que mais me marcou nos últimos tempos. Fiquei com ele na cabeça desde que o li. Exteriormente demonstro muito menos do quanto vivo preocupado com o futuro, com o futuro dos meus filhos, com o dia de amanhã. Normalmente nem durmo direito. Tenho tentado mudar isso, desde que li esse texto. Lógico que não tenho conseguido, mas acho que isso também é um aprendizado. Às vezes lembro, às vezes esqueço, mas estou tentando....

Nilce 10 de maio de 2011 23:56  

Oi Macá

Esse cara soube viver e sabe o que é aproveitar cada minuto que tem.
Gostei muito.

Bjs no coração!

Nilce

welze 11 de maio de 2011 13:51  

oi minha linda. agradeço a visita. sabe, coloco noz moscada, uma pitada, em tudo que quero perfumar. Bem pouco pois ela, a danada, rouba o sabor de tudo. Em pure de batatas, escondidinhos, arroz doce, canjica, fica muito bom, em doce de abóbora então, nem se fala, aqui em casa é uso obrigatório. adoro. beijos e boa semana

orvalho do ceu 11 de maio de 2011 22:13  

Olá, querida Macá
Estive viajando por 20 dias e estou com as visitas em "dívida"... mas vou, aos poucos, recuperando o contato e apreciando o seu Blog que tanto gosto de fazer...
Espero que tudo esteja na perfeita paz!!!
O meu apreço fraterno
Deus seja a sua Força!!!
Fraternalmente,
Roselia (Orvalho do Céu)

carlos 15 de janeiro de 2012 18:02  

Este é um dos livros mais profundos de alan watts,que foi muito além de seu tempo.escrito em 1951,o livro é "infernalmente" atual,parece que foi escrito semana passada.Watts diz que nossas tentativas para fugir da ansiedade gerada pela insegurança básica da existência-através da tecnologia,dos estímulos quimicos e tóxicos,da politica e até da religião- só perpetuam e aumentam nosso sentido de insegurança e a ansiedade decorrente.seguindo a linha taoísta,watts oferece uma solução sutil e radical,aparentemente nihilista,mas profundamente libertadora e até "religiosa".Altamente recomendado!

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