Nhenhenhe

>> domingo, 25 de setembro de 2011

Às vezes me pego observando uma pessoa - não vou dizer quem é - à mesa, dizendo pra namorada: - você quer mais salada?
Normal não é? 
É, se isso tivesse sido dito na voz normal, mas não foi.
Foi mais ou menos assim que eu ouvi: amorzinho, voxê quer mais saladinha?
isso me faz voltar no tempo, ainda quando trabalhava no banco.


Sentada à minha mesa, conferindo coisas do dia, de repente começo a ouvir umas coisas estranhas, palavras que não entendo. Não estou prestando atenção, mas a pessoa em questão - no caso, uma colega de trabalho - está falando na mesa ao lado, colada à minha:


- Ah! nhenhé, vamos vai? Nhenhé, eu te amo. Não, não vou desligar, desliga você, um beijinho, não, sou eu que te amo mais, 20 beijinhos, não nhenhé, não quero desligar ....


Uma outra amiga, na época estudante universitária em outra cidade, ao se despedir - em lágrimas - do namorado:

- Forinho, eu não quero ir. Eu vou ficar com muita, muita saudade. E ele, nos seus 1,85 m, quase 100 kgs, tentava acalmá-la dizendo que na próxima sexta-feira já iriam se ver de novo.
- Foro, forinho, voxê vai me esperar? E assim ia até o motorista do ônibus, já de saco cheio de tanta milonga ameaçar partir sem ela.
 Daí, ao ler essa crônica, me lembrei desses momentos.
Já fiz isso? Claro que já, início de namoro, nós nos chamávamos de ....... ah! deixa pra lá........ mas não consigo mais me situar, e também não tinha ninguém como ele (Antonio Prata) pra me alertar.

imagem google

VOZINHA

"QUANDO VEJO um destes sujeitos que tentam disfarçar a careca esticando ralas melenas por cima do cocuruto, de orelha a orelha, me ponho a pensar: será que o infeliz não percebe o fracasso da gambiarra? Não se dá conta de que a lustrosa calva está tão escondida quanto o sol atrás de uma peneira?
     Não, ele não percebe, pois o "comb-over", como os americanos chamam esse equívoco estético (ou "sobrepenteado", numa descabelada tradução), não é o tipo de mau passo que se dá da noite pro dia, mas o resultado de um lento processo; e se é verdade que devagar se vai ao longe, também é certo que a evolução gradual dificulta a compreensão de que se foi longe demais. Numa bela tarde, no fim da adolescência, o indivíduo faz um meneio com a cabeça, jogando a franja por cima de uma entrada incipiente -nem desconfia que, duas décadas mais tarde, estará andando por aí com uma espécie de persiana colada à cachola.
     Solidarizei-me com a turma do puxadinho capilar ao ser acusado, semana passada, de ser praticante de uma outra modalidade de cega degenerescência, tão comum quanto o "comb-over" e, talvez, ainda mais nefasta. Estava num táxi, ao lado do Paulão, colega de trabalho, falando ao celular com minha mulher. Assim que desliguei, Paulão soltou, com indisfarçável sarcasmo: "Nossa, Antonio, nunca imaginei que você fizesse 'vozinha'". Meu mundo ruiu.
     Até então, tinha cá para mim que o tom utilizado para falar com meu amor era absolutamente republicano. Simpático, sim, doce, claro, mas jamais, jamais, jamais descambando para algo que pudesse ser enquadrado como "vozinha" -aquele timbre meloso e infantil que alguns casais adotam, como se falassem com ursos de pelúcia.
     Arrogante, cria-me imune a tal comportamento, coisa de gente que grita apelidos íntimos na seção de laticínios do supermercado, que se chama de "pai" e "mãe" -e nem sempre na presença dos filhos-, que espreme cravos em logradouros públicos.   Ao que parece, contudo, a "vozinha" é como o "comb-over", lenta e insidiosa: você pode estar usando e não sabe. Numa bela noite, no começo da relação, o indivíduo diz um sóbrio "eu te amo", ao despedir-se da namorada -nem desconfia que, duas décadas mais tarde, estará no elevador da firma, falando em alto e bom som: "Titchucão num qué disligá! Diliga voxê, Titchuquinha!".
     Defendi-me atacando. Como meu colega podia fazer tamanha acusação sem provas cabais?! Com um sorriso no rosto, Paulão apresentou as evidências: disse que eu havia atendido o celular falando "Oi, Coisica linda!" e, por seis vezes, teria usado o apelido "Pequenina". Então, dando a estocada final, perguntou: "E ela? Te chama de quê?". Fiz uso do direito constitucional de não apresentar informações que possam ser usadas contra mim e permaneci calado.
     Ontem, tive uma conversa séria com minha mulher. Temos que parar com isso. Ela, contudo, jura que nosso tom não configura uma situação de "vozinha" e que há um enorme fosso entre o carinhoso e o debiloide. Não sei, não. Também os carecas, diante do espelho, todas as manhãs, devem repetir mantras de autoengano, enquanto puxam as costeletas para o alto e as encharcam de laquê. É ou não é, Tichuquinha linda do Titchucão?"

Folha de São Paulo - caderno cotidiano - 21/09/11
antonioprata.folha@uol.com.br
 @antonioprata


E você, já fez ou ainda faz Vozinha? Ah! conta vai! rsrsrsrsrsrs



beijos

6 comentários:

Veronica Kraemer 25 de setembro de 2011 20:23  

hahahahaha, adorei o post, Macá!
Eu tenho um ex que fazia a vozinha e dizia amore com ela, e tudo era a vozinha... Credo, que saco, eu detesto isso, Macáaaaaaaaaaa...
Mas, como eu amava, não ligava.
Um outro dia, este ex me liga meio alterado pela bebida, e eu não falava com ele há séculos. O dito cujo usou a vozinha pra dizer que estava com saudades. Eu não sabia se ria ou se chorava...
Vozinha never more!
Linda semana pra ti
Beijossssssssssssssss

Lúcia Soares 25 de setembro de 2011 22:10  

Macá, nunca usei vozinha pra falar com namorado nenhum, nem com o mrido. Nem ele comigo. Muito menos em público! rsrs
Acho uma chatice. Não nos chamamos de "amor", nem "bem", nem apelidos particulares, nada, nada.
Mas temos nossos momentos de ternura, sem nhem nhem henm
Beijo e boa semana!

pensandoemfamilia 27 de setembro de 2011 12:28  

Rs,rs,rs. Ótimo. Já tive épocas de tratamento, apelidos carinhosos, e acho que tem momento para tudo...
bjs

Sheyla Xavier 28 de setembro de 2011 20:41  

Ah, Macá..
Quem nunca fez isso algum dia na vida, que atire a primeira pedra! hehehe Bem, esa minha fase já passou, mas agora estou (re)começando a escutar isso da minha filhota com seu namorado! O amor é lindo!!
Tudo de bom!
bjokas

Tati 29 de setembro de 2011 15:13  

Ah Macá, nem entendi vc me "convidar" a ler este texto, hein? Ai, ai, ai que fico tiste com voxe! kkk Eu não sou nada boa nestas coisas. Pior que como Tati sempre acontece um TatiBitati, que não faz nenhum sentido para mim. Sou carinhosa sim, mas sempre fiz questão, inclusive com o Bê, de falar as palavras corretamente e sem diminutivo. Acho que foi por isso que ele falou tão cedo e um português corretinho...
Mas que eu mudo a voz quando falo com o Vi... ah... é verdade... Mas fazer o que? É carinho, né? rsrs Beijos.

Beth/Lilás 5 de outubro de 2011 09:10  

Macá, querida!

Não precisa aprovar este comentário, mas você já viu um email que lhe mandei no dia seguinte que cheguei aqui no Rio?
Está na sua caixa do uol veja lá, ok.
beijuuuuuuu

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